Po di Sangui

 



Tudo aqui é tempo, é agora, e... O amanhã está longe!


Ainda que seja na ausência de um ponteiro, ele se revela no espelho que acende a candeia no solo, não antes de uma lente fixar um fiar e um tecer de prosa sobre a quebra de costumes onde o amor torna um único nome em dois, e dois seres fossem, um mesmo corpo vindo da mesma mãe e tempo, na terra mãe, como se o tempo repousasse, e num despertar da ancestralidade marcada que se anuncia, ora pela morte, ora pela vida... ressoa a pergunta... quem de nós está morto? 


Na pausa desse durante a subjetividade diz que chega o tempo de ir para um não lugar, por sobrevivência e nessas horas, para onde você parte? Para onde, você volta? 


Se não há  tempo, ainda há a seiva que escorre em direção à finitude de tudo que se conhece dança, corpo/lugar... uma dança para além do corpo que se move e coubesse aos olhos dançar com o sol e a brisa que dá corpo ao amante por entre as águas, sobre a planície, é o tempo que dança e são os olhos daquele que narra, que dança conosco como se costurasse a aceitação e o desfiar do tecido de quando chega a tecno/logia de queimar o mundo, sem saber apagar o fogo. E o olhar é amplamente tecno/lógico e devasta tudo que o tempo fiou com com os corpos irmãos tombados, onde a dança num canon cessasse, por instantes. Pois que o durante que digo, nunca parasse  a seiva que escorre como leite entre a terra vermelha, púrpura como o destino nos países de África, para longe de onde o sangue é estanque. Sim, a vida baila mesmo sem o canto, sem a musicalidade,  sendo o silêncio o acorde mais perfeito, afinal é do corpo ser movente, mesmo sem o solo, distante das árvores irmãs até o retorno, que os ancestrais preservam em suas camadas de ossos, sob o solo. 


Se por um lado a padronização invade, por outro o combate se faz com a nomadização, e a comunhão entre os nômades, e nesse ponto particularmente penso em quantas vezes isso se dá internamente em nós que em algum momento, nos deparamos com a necessidade de sermos nós, nômades em nossa interioridade até que uma fala canta, e em Po di Sangui ela entra com a esperança no riso da meninisse que dá continuidade àquilo que a vida resiste, em que digo, o retorno.


A câmera em Flora Gomes, vejo como o olhar técnico que de forma metafórica cartografa e retrata com olhar poético, a volta desse  sorriso de novo tempo, novo Mundo, nos risos das crianças, no olhar de saber daquele que traz as marcas de seu durante e dizemos, o velho, que sara a ferida da terra mãe. 


Assim e para além disso que tento sem sucesso explicar, me cativou Po do Sangui do cineasta bissau-guinense, Flora Gomes, assim também, embora sem a dança do olhar tão poético, mas com a dança das paixões entre precariedade e evolução conquistada com o combate que enoluquece, me cativou Os Olhos Azuis de Yonta do mesmo diretor, pelo "tempo", que não gosto de dizer, mas que é, e discorre... eis a percepção dessa humana, me parece que tudo em Flora Gomes, e certamente diria o mesmo Andrei Tarkovski, que Flora esculpe o tempo, este que é agora e que Flora, nos dá de presente nos fazendo observar, contemplar em verdadeiro estado de presença, como se morassemos nos olhos de Flora, e esse "morar" demorasse e demorar naquilo que é bom é o mesmo que estar em encantamento, e o mesmo se dá nas entrevistas de Flora, em Mortu Nega (Morte Negada), em Os Olhos Azuis de Yonta esse "tempo" é outro, e tudo é acelerado... a dança que se faz onda em seu sobe e desce, a poesia declamada frenética, o frenesí das rodas e me pareceram que elas é que dão início a marcação do tempo nas mãos das crianças de Flora. E embora anterior a Po di Sangui, a tecno visão é a mesma que invade a vida, e afetam os corpos, e os corpos se adaptam... E isso, se bom ou não, é do Homem.


Coisa importante de observar em Flora, especificamente em Po di Sangui é uma pergunta que gosto de fazer... Para onde você parte? Tal pergunta sempre me dá a sensação de poder escolher, avaliar, ir ou não e penso que a nossos irmãos de África, sequestrados, vendidos e escravizados, lançados ao mar ou desembarcados nas colônias, tal pergunta não tenha sido escolha, assim como não é aos escravizados contemporâneos.


Então que nessas palavras que não alcanço, digo de meu encantamento e trago um poema velho, minha dica é, caso assista, esteja em presença. Pois "o amanhã está longe".


Para onde você parte?


Rosa

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