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homens comuns não sabem de flores...

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quando elas pedem rega, quando elas pedem poda, quando elas só querem que as poupem. homens comuns apenas colhem flores e as dispõem sobre a mesa como pedido de desculpas.  homens comuns não sabem que toda flor se mantém num caule de aspereza: mesmo as suculentas, mesmo as solitárias flores dos cactos. os poetas sabem... dos efeitos dos espinhos das rosas sem nunca os tocarem, que os insetos sequer os percebem e os parasitas destroem roseirais inteiros. os jardineiros não sabem tanto de flores quanto se pensa... apenas as mapeiam em quantidade, formas e odores, são seus enfermeiros. os botânicos e bioarqueólogos nada sabem de flores...  as cartografam as embalsamam, as matam. os fotógrafos as desbravam, como os viajantes. os jornalistas as temem, os jornaleiros só sabem de embrulhá-las e vendê-las. as mulheres as admiram e as escolhem; Hortências, Dálias, Flor de Laranjeira...  os anjos... se espetam para dar prova de que não vivem e se lançam dos céus aos mares, pois par...

Pêndulo

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 seguir para o Norte? para o Sul? ___ainda  que o percurso seja  interrompido  pelo passo  pelo holofote  no centro do palco e queiramos  performar a via em atos um, dois, três... e a bússola se parta e como um bumerangue  no ponto em que decide  e tudo fique estanque ou algum vento nos suspenda  em hélice pelo estro encontro em verso  ... vértice, quis dizer vértice  ou seria vórtice? esqueço  às vezes  quando num movimento  caótico  desatando  os laços de fitas  do emaranhado  dos cabelos  sou puxada ao lado oposto de onde ___seguir Norte? Sul? Centro-oeste  e parar  para prender os cabelos  seja necessário  para que não seja esbofeteada  a cara lavada sobre o corpo     p       ê    n       d    u       l    o  ___seguir o tempo que é aço e cinge a face  com o gum...

Sede

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  a carne dessa língua  contorna embebida em saliva  a auréola de meu mamilo  mordisca o quanto pode se sacia sente fome e vai além... degusta  do alimento de que disponho  (meu corpo todo cru, Ceviche, submisso) cobiça e carícia me aliciam no entorno de meu umbigo  desce dedo dentre minha veste intima e a tira  me toca  e me comove me excita  umedecido meu sexo  a língua, saboreia meu gosto  tonta estremeço  sou febre  ao mesmo instante que arrepio  vasante como um rio  sou toda líquida  suor  orgasmo  sou boca  e buceta encharcadas os olhos, marejados e tristes  a língua, despida de pudor silencia para me ver com presença, hiper-tônus sem cronos  vê meu dentro, me cativa sou um corpo que treme e arde diante o toque e me penetra os olhos emotivos  despidos de afeto  desprovido de amor ainda assim me conforta com a dor inevitável em que me aperta  por querer minha...

Em minhas Costas - Sou Atlântica

  no entanto  em tudo que é entorno  trasbordo apesar do sol que parte  lado esquerdo do monte de meu ombro diante meu nariz  o lago  resplandece na imagem  a coragem  das aves  a liberdade  no entanto e apesar de tudo  que envolve  há o mar incessante  de águas moles num açoite insano arrebentação devagar e sempre a romper maresia  a imponência  do mirante em minhas costas sou  Atlântica rosa a.

Outramentos

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  A busca da origem, é assim que termina. Exatamente como começa... Lembro meu sogro, digo "sogro", e sempre o direi, pois que embora já não o seja, me é, por experiência do que é a imagem de um sogro, não digo do sogro mais recente, embora este também ainda me seja, mesmo não sendo mais, me é, como o outro que absorvo do outro, outra experiência... e se isso que tento dizer parece inútil e confuso, tente ler Molloy de Samuel Beckett. Ah mas voltemos ao meu sogro, o Alberto... Lembro ter percebido o fim ao lado dele na cama, quando ao trocar sua frauda, ele me chamou de mãe, e naquele dia após os cuidados higiênicos e alimentícios e explicar que não era eu, quem ele pensava ser, o levei até o computador e pelo Google Maps, fiz um tour pelo bairro em que ele fora criado, e ele lembrava cada detalhe, cada nome da infância, cada tia, prima, a Pedra da Onça, o Bonde, as pornografias típicas de um cortiço. Lá estava Alberto em essência, o começo no fim. Cá estou eu, em busca de ...

Escrevo Bruto como os Homens

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toda vez que estudo poesia  ela sai pela porta, limpa os pés na soleira  e em seu limiar me diz... Só volto quando estiveres pura dessa vaidade, tola. é que me "cativa" vez por outra  uma forma poética  em seu rigor. e a poética se rebela, me tira a poesia das vistas, a pena da mão, o sentido dos dedos, o olhar. nada me sai de dentro... que chega dói  a língua ao sussurrar  a saliva azeda. escrevo bruto, sem rigor e duro. como os homens... alguns! até cansar de brincar de perfeição  e ela me volta... livre, a discorrer na pena  a carne crua, a saliva doce ...fêmea, flor  Rosa  

Desespero de me Ser

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  quem sou eu? sou o meu dentro... o acumulado de tudo que vivi? certamente meu desespero de me ser... pois, hoje ao acordar, já não sou aquele que fui ontem e amanhã não serei este que estou sendo hoje. e sei, a cada vez que durmo quero acordar outro. é um esforço! nem sei quem sou hoje e já quero dormir para mudar. ser na próxima hora, dia, na virada do ano, uma promessa, uma versão melhorada, mas nunca me sou o suficiente! tenho falta de alguns dos que fui, os que marcaram meu caminho, mas não passam de datas, me nego a crer que sou uma data após a outra, até o esgotar delas para mim. sou meus fantasmas? não poderia sê-los ainda que quisesse. talvez eles me digam sobre meus atos, mas não sou apenas meus atos, ou creio que não.  não sou bom. mas não sou mau. não tento ser o outro. me ser já me ocupa por inteiro e por toda vida me fui, não haveria tempo. ser o outro seria uma vaidade absurda, uns dizem inveja, mas certamente quem se arrisca em tal termo e tem tempo de se ocup...

Diante do Mar Imenso

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  o corpo de poeta já fora movente duna inquieto  um dia estava aqui noutro, um quilômetro adiante mergulhou oásis  e ao olhar para trás as águas castanhas pelas folhas mortas dos dias de rio de Virgínia Wolf  correu veio d'água  filete entre seixos igarapé  e diante do mar imenso preso num dique endureceu em escamas  cristais de sais insolúveis o corpo que resiste  estanque vai e vem das espumas em dias de frio  e ressaca  mas em dias de vendavais o ar tempera o clima  e sua maresia impregna todo entorno e punem tal corpo  que em seu desgaste  se perde e dilui feito ferro em liquescências frente ao mar que esbraveja um sonoro... - vem, e vai... - ao bater contra as rochas nunca volta ou diz das mesmas águas  que busca o corpo perdido pelos ares o poeta e seu cansaço  voa sem medir o calado mergulha, boca aberta no mais profundo abismo                 por    ...

A palavra - Oceano

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  há na doca um corpo errante de palavras ditas sussurro e salivo ao dizer do mar, um poema entre suores e calafrios o poema correnteza sobre meu corpo me desafia digo desafinada - canto - em recitais de esquecer  nadadeiras irisadas  ao reflexo, água e sol um corpo ao léu se pronuncia ao mar  que ama? sem saber se avança  no engano das ondas ou se recua? poeta... um corpo errante e este meu corpo que surfa entre desejo de um mergulho, só  e banhos à sombra é um corpo que teme entrega mas que não nega  o que provoca nele o tremor de um poema  o vapor inebriante que leva de arrasto a voz da poeta a brincar com a língua na boca muda a palavra - oceano - ao sonhar com o corpo do poeta  imenso  sobre a palavra gozo na carne crua  que desperta esquecida umidade relativa - absoluta Rosa Ilustração: Agnes Cecile

Lampiões

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  [lampiões]                "Na claridade do dia                  ninguém distingue o vaga-lume."                          Abbas Kiarostami tenho vaga-lumes presos na garganta pequenas estrelas na boca da noite ensaio lampejos ☆ nas madrugadas  bioluminescências minhas miudezas  que sussurro entre os dedos ☆ faróis  ☆ sob o sol todas as luzes se apagam só minha pele dura brilha na hora dourada ☆ durmo nas manhãs  evito o parto sagrado do dia ☆ não sei ser mãe  ☆ desisti de parir qualquer coisa  que possa morrer antes de mim . rosa a. Foto: Acehz