crista da onda
ao final da última chama do dia
acendo meu primeiro fumo
descarto as cinzas em bancos de concreto
a compor das paisagens cimentícias
as sobras de meus pensamentos urbanos
sobre os cascalhos espalhados
atrapalhando aquele que caminha
o semáforo que pisca amarelo
dando liberdade aos aflitos
que querem lar
ou a liberdade de ser, apenas
meu corpo alvo em pele bioluminescente
se arrepia
não me salvaria a copa de uma árvore
à condição de ser crosta de terrestre
ainda que sobre os montes do Norte
eu toque as nuvens
ainda que acima da crista
da onda mais íngreme de Nazaré
eu me afogue
e me apague
:
ao acender o fogo do dia
apago meu clarão
na ponta de meu último cigarro
e escureço meu corpo
nas horas em que tudo incendeia
a noite é um sussurro, um ronco
sonho sem rumo... ouço em silêncio
sigo
em minha sina de vagalume
notívaga
à espreita de tudo que digo saudade
e não me deixa dormir
Rosa
ilustração: Martine Johanna
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