Desespero de me Ser


 

quem sou eu?

sou o meu dentro...


o acumulado de tudo que vivi?


certamente meu desespero de me ser...

pois, hoje ao acordar, já não sou aquele que fui ontem e amanhã não serei este que estou sendo hoje.


e sei, a cada vez que durmo quero acordar outro. é um esforço! nem sei quem sou hoje e já quero dormir para mudar.

ser na próxima hora, dia, na virada do ano, uma promessa, uma versão melhorada, mas nunca me sou o suficiente! tenho falta de alguns dos que fui, os que marcaram meu caminho, mas não passam de datas, me nego a crer que sou uma data após a outra, até o esgotar delas para mim.


sou meus fantasmas? não poderia sê-los ainda que quisesse. talvez eles me digam sobre meus atos, mas não sou apenas meus atos, ou creio que não. 


não sou bom. mas não sou mau. não tento ser o outro. me ser já me ocupa por inteiro e por toda vida me fui, não haveria tempo. ser o outro seria uma vaidade absurda, uns dizem inveja, mas certamente quem se arrisca em tal termo e tem tempo de se ocupar do outro já cansou de refletir sobre a questão. eu persevero em me ser a cada barbear diante do espelho. não se ocupe de quem diz barbaridades, certamente aquele que diz do outro é que deve ser, maldito, vaidoso, invejoso... e o é até por conhecimento de causa. só digo do que sei e só sei de dias, e são poucos, alguns caminhos, encontros, desencontros, poucos acertos inúmeros enganos.


é provável que, se morrer de velhice, deverei me saber. e poderia dar respostas belas, e prováveis de quem sou, mas nunca vi, em vida alguém se dizer; "eu sou...", "isto ou aquilo"... e ser coerente... que importa? a resposta nunca é eficaz ou completa. só estamos completos após a passagem que também não sabemos o que é, mas que planejamos. que petulância querer me saber, que petulante você me perguntar. que diferença fará?


sou meu cansaço! o cansaço de me perseguir e me fiz incansável em tal ato a vida toda e devo partir tendo desistido, ou sabido da questão... pelo susto!

saco de pele fina, sou frio, por vezes quente e úmido, guardo meus ossos, meus miolos e um amontoado de conceitos... pois penso que penso. e ainda assim me sinto uma sala vazia, nunca antes visitado, nem por mim, nem por quem julga me saber.


sou nada. 


e isso me é tão satisfatório no momento que rio ao espantar a poeira dos pés...

já fui meu pai, minha mãe, meu filho, estarei no meus netos e netas e nunca preencherei a lacuna.


"quem és tu?"


***


Na foto... Robby Lince

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