Missiva pós-Masoch para: Severino
estou dedilhando o amor
quando toco
as manchas arroxeadas em minha pele
uma ou outra cicatriz
o sangue oxidado no lençol
finjo não vê-lo
fujo de sê-lo
antes, quando fui
fui para cima - ventre e peito
expostos num divã
deitei meu horizonte
no horizonte dele
éramos então, horizontais
dois pares de lâminas
cortando a mirada
do mar ao longe - feito raios
entrecruzados no céu
mais que isso me era impossível
rajadas de vento se desfazem
e quero sentir esse atrito
pele - poeira - pêndulo
força brutal
foi na vertigem do horizonte
o mais perto que cheguei
do descanso do mar ao ver o Sol
sem ter onde me agarrar
além do outro corpo ali
a me contemplar
por um momento de gozo ou não
como poderia eu
com meu pobre corpo doído
... apagar aquilo
que o outro pintou de si?
ter toda aquela intermitência
sem despencar no abismo, dele e meu?
foi naquela linha que aprendi
a cair
e que cair, é uma pequena morte
... então engano o amor, para morrer depois
e estou na borda agora
onde apenas as ondas se dobram
e inúteis desfazem os nós em meu corpo
cativo
pois não quero seguir e digo
sou pequena demais
e tenho os pés e mãos atados
com o desejo,
tenho febre e fome do sabor umami
e não quero menos que isso
no cardápio de um 24/7
quero o aperto
o sufoco
o acolhimento no desatar das cordas
que me içam
e de tudo aquilo que me penetra
e se estou perdida
é por desejar mais
daquilo que me excita
e não sabe me desatar
ou me teme
a. Vanda
Comentários
Postar um comentário