Outramentos


 

A busca da origem, é assim que termina. Exatamente como começa...


Lembro meu sogro, digo "sogro", e sempre o direi, pois que embora já não o seja, me é, por experiência do que é a imagem de um sogro, não digo do sogro mais recente, embora este também ainda me seja, mesmo não sendo mais, me é, como o outro que absorvo do outro, outra experiência... e se isso que tento dizer parece inútil e confuso, tente ler Molloy de Samuel Beckett. Ah mas voltemos ao meu sogro, o Alberto... Lembro ter percebido o fim ao lado dele na cama, quando ao trocar sua frauda, ele me chamou de mãe, e naquele dia após os cuidados higiênicos e alimentícios e explicar que não era eu, quem ele pensava ser, o levei até o computador e pelo Google Maps, fiz um tour pelo bairro em que ele fora criado, e ele lembrava cada detalhe, cada nome da infância, cada tia, prima, a Pedra da Onça, o Bonde, as pornografias típicas de um cortiço. Lá estava Alberto em essência, o começo no fim. Cá estou eu, em busca de minha cadela interior, e não sei como me separar de tantos dentro de mim... Qual é a essência? Quem é meu Molloy? Meu Moran? Se eu me encontrar, será que vou me reconhecer? 


Outramentos


ao engolir o outro

o outro do outro

e todos ou outros


os nossos tantos outros

essa "gentrificação"

dentro da gente


nessa mistura interna 

de idiomas, manias

comportamentos 

que já não somos


nós

liames

véu que se estende, elã vital 

na contra corrente 


(apesar do corpo)


apesar das mãos

entrelaçadas 

ou postas à frente 

vazias, suplicantes

limpas ou não 

das pedras 


o meu, o teu

corpo

que grita dentro e ri

interno

e segue


cada um para sua batalha 

diariamente perdida 


a se desfazer

de tudo que nos tornamos

após a linha de confluência 

onde nos encontramos


um

corpo

só 


um fim,


Rosa Ataíde 


indo de encontro a Malone Morre

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