o nome dele era minha fome

 



e mastigava seu nome
feito chiclé
meu buraco no estômago
se preenchia com sua mão segura
à minha
e me alimentava
apenas nas horas de suas refeições
uma colherada de fé
no seu Danone e no de seu irmão
uma mordida permitida
no bolo Ana Maria de cada um
era o tempo que tinha
para me manter um cabide
erguido em saltos
nos quarenta e sete quilos
de mãe de dois guris
a saciedade garantida
aos tragos no Free
e na algazarra do caçula ao velotrol
ou ao vê-lo correndo entre os touros
com botas de açougueiro
chapéu de rei do laço
um berrante na mão
nu na parte íntima
queria voar entre galhos
como um Tarzan
ele é um buraco no meu peito
que tento preencher
com amores anárquicos
a saber da mulher
que não tive tempo
ser
quando zelava por seu corpo
cheio de viço
não é assim, ser mãe?
um coração do tamanho da soma
dos corações de seus filhos
tenho metade de um coração
ou um coração vazio em alguma parte
uma aceleração de saudade
que se equilibra na expectativa
de um menino/homem
que me chama "mãe"
a parte viva
de mim
mas desde que morri do outro lado
nunca mais fome, senti
Rosa
Imagem: @elsbeth_karl

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