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Dissipando

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escovo os dentes  até que gengiva sangre. esfolio a pele,  cada célula morta pelos ralos  - vida inteirinha. alinho os cabelos,  pinto, descoloro. engulo poemas, leio, releio, decoro, mas cada um deles  sinto como nó no estômago que não desfaço, não digiro nem quando caminho  descalça na areia e os vomito  para que ondas os apaguem. rosangela a.

inabilidades

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tenho sinais de expressões  na pele que enfraquece, na fala que me sabota  [ato falho nos olhos que me cegam quando finjo que não vejo o nítido, o claro. tenho sinais de expressões até nos passos quando endurecem meus joelhos e insisto em pular  uma poça, muitas vezes um poço. tenho sinais de expressões até na cervical  e não falo de lombar, nem de ciática. eu falo é da brevidade... eu falo é da vida. rosangela a.

tantos anos

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algo da infância contida, menina triste que fora guardada dentro da pele,  ao lado esquerdo do peito. nada da mocidade rebelde de um dia. hoje asas da liberdade adquirida?  - não. apenas o livre arbítrio. hoje também serena, enquanto espanto! de  milhares de tons de aquarelas espalhados dos tendões dos pés, até as pontas - dos fios. ao esbranquiçado de meus calcanhares - lixa. às unhas quebradiças  - vitaminas.  à coluna enrijecida  -  yoga. para a mente povoada  - medito. e é agora que a vida acontece? - sim... quando tudo começa a ranger no templo que me abriga. sem medos, sem dobras me volto às pazes com a divindade que me habita. tudo é grito... é rito... delito, tudo é finito ...enquanto eternizo como armadura  versos inquietantes e alguma lira. rosangela a.

No vendaval da tua vida

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Faço parte deste vento frio que açoita minha face e a faz arder.  Eu volto seja doloroso ou não - o vento frio na face, as marcas deste açoite - Eu volto pela persistência e a coragem de saber que prosseguir é uma opção. Não importa o quão longe estarei amanhã, pois intento ficar.  Me importa, fazer parte deste vento recurvo, aflito ao seu lado.  E você se pergunta, o por quê?  Por que o amor legítimo se faz também nos pesares, quando nos damos as mãos coadjuvantes. Quando intentamos não só o prazer e sim o todo. E o todo de alguém nunca é deveras afável, favorável. O todo é tudo mesmo, é o bem e o mal da gente. Não há ponto de fuga, nem cabe resistência. O que está determinado, determinado está. Mesmo que o tempo traga outras vidas para compreendemos que um olhar atento, facilita o entorno e o dentro. O vento passa! Enquanto não, a gente domina... Juntos.  rosangela ataíde

violar-te inteiro, amar-te devagar

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eu mordo tuas coxas mas a carne é dura, então mordo teu membro ingenuamente, quase sem querer. não me culpe por violência doméstica... não, não! tenho as marcas de tuas mordidas na nuca e nos ombros. tuas unhas tatuaram minhas ancas. será que um dia sai? meus cabelos ainda pairam por ai  em algum canto... nenhum delito até aqui. delito é o silêncio e raramente silenciamos, embora eu fale mais que você,  durante a tarde e te silencie quando abro as pernas enquanto você distraído se desconserta e tente rasgar minhas vestes. ainda sinto você  deslizando os dedos sobre meu dorso até encontrar os montes de meus seios  e preencher minha boca como quem quisesse me calar enquanto alucino. há uma fricção, uma fixação... tesão? sei lá! cena de tv, cinema pornô ...  com aquelas luzes neon de seu computador e a sombra de nossos corpos na parede. mas nada me é mais prezado  que quando você, interrompe o gozo por mais um tempo para que se prolongue o efeito do mesmo. um ...

larva da palavra

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  a língua, larva da palavra esconde o monstro alegórico entrelaçado na garganta. escancara a boca de quem não se permite dizer nada além de palavras tristes, cansadas, pois tudo é cansativo a quem desiste. e eu lamento! eu ficaria triste. triste não... perplexa, se não houvesse o que dizer na hora do jantar em que eu sou servida viva, dentes a mostra, carne crua, cheiro que inebria. e necessário dizer tudo o que foi omitido, bobagens que provoquem risos, é necessário falar do dia, da canção preferida. não diria nada aos tolos, de certo me calaria diante do medo que arrisco trazer na bagagem, mas do meu silêncio nasce algumas rimas sem lira, às vezes cheias de ira, às vezes cheias de alegrias. minha língua anda inquieta e talvez por isso ando aflita. meus nervos a flor da pele estão me deixando exausta apesar de ficar calma e limpa diante do amor sonoro que vivencio. eu trago a paz, e alguma lucidez ainda me resta, pois muito enlouqueço nos dias de ira. eu trago a paz entre os dent...

meia luz

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render-se a meia luz desta vela que se acende sem fronteiras a perceber que nada nos detém no velar desta volúpia a saborosa boca rubra de teu corpo oferenda aos delírios que os lírios lá fora pendem e nós dois a tremer a cada mordedura até  a nuca a boca quente pertencentes à lua que o sol inebria abrasados pela chama deste enlace... a noite geme inteira rosangela ataíde

Cybercafé

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Sussurrar palavras aleatórias em páginas digitais... ninguém as ouve. A cursiva está abandonada no velho caderno de espiral... Quem as lê? Talvez no sepultar, alguém as busque para um epitáfio decente e breve - imagino - De que valem as ideias em tempos de ausência de sentidos, em que tudo evapora é líquido e inflamável? - cuidado com a bala perdida, - cuidado com as áreas de risco, - cuidado ao dizer adeus ao menino Seria a vida a nos escapar pelos dedos, ou a lançamos fora, fartos dessa humanidade, humanamente infeliz e adoecida? Apagam-se os rabiscos a lápis e o tinteiro está vazio. O livro impresso perde o cheiro e o tato, um pouco do delirar também. Mas isto é só uma teoria. - eu creio - Visto que estamos dispersos, somos ocupados virtuais... E deve ser só isso! Ou guardamos tudo nas estantes antes de queimarem os livros? O passado está guardado atrás do tempo gotejando sobre a mesa uma pintura surrealista. O futuro já é de dedilhar - apenas cliques - E até os pincéis estão secos ...

Qualquer Canto

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Tive muitos dias de sorrir diante de palavras quentes. Tive muitas noites de chorar diante da aridez das vozes traiçoeiras. Mas só eu sei, dos dias de canto no auditório imaginário da minha sala... Mas só eu sei, dos dias de mar e dos megulhos em águas tranquilas. E se eu voasse agora teria o céu e as nuvens que qualquer vento sopra para longe ...Qualquer lugar incerto. E se eu cantasse neste instante, a música  pareceria melodia triste jogada num prado e minha voz é disfonica em descampados. Do passado que me atormenta só ouço ecos.  E digo adeus a tudo que me feriu a carne. Themis que sou, ou rainha de espadas...  O que é justo pago com justiça. Prefiro o mar com sua dança, Balé de ondas. Ancorar em um porto segura e serena. Quase sereia. Me faltam nadadeiras, escamas talvez. Um pouco de coragem também. Pérola?  No mar tudo é sonoro. E nem as aves escapam,  embora estejam sempre em partida. Praiana que sou, só topo o canto se tiver um horizonte azul, um risco ...

Na ponta de meu cigarro

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a vida está me corroendo. não temo os dias sombrios com seus fascistas galopantes espreitando o meu caminho, nem me assusta a morte inevitável. é a vida que me corrompe e me aniquila, me atribula, me desnorteia. é a vida que me tira o chão e encurta minha estrada. enquanto pulo de um verso a outro. cada passo é o tempo que se encurta. os meus mortos seguem seus caminhos sem muito levarem de mim, mas deixam seus vestígios em minha pele, mente e história. e isto é que faz minha artéria endurecer. a vida eu vejo na ponta de meu cigarro... se esvaindo. e eu embruteço nesta desordem disfarçada de alegria e até acredito. a vida me corrói e dói o tanto que me fere o peito palpitante assustado. não, não é a morte que me dilacera. é a vida e os dias vermelhos cheios de ira. e uma gana me sobe pela garganta, mas temerosa... eu silencio. rosangela a.