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Felicidade

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Acabei de ver uma cena que me tirou o chão. Fiquei absorta com um riso de mofa no canto da boca, olhos lacrimejando. Quase entrei em pânico, e correndo para dentro de casa. É que aqui, de frente para minha casa, um pescador alimentava gaivotas. Descaradamente, com toda aquela bondade ele lançava ao ar peixes, e elas entendiam o comando e com uma mira certeira, elas os pegavam. Ao ar, ao ar mesmo, no céu aves se alimentavam. Alimentando toda aquela cena humilhante, a lagoa luzia serena debaixo do sol de inverno, o som que se ouvia era das mesmas gaivotas agitadas pela facilidade do alimento gratuito. Peguei correndo o celular e procurei no Google uma definição que me orientasse sobre aqueles sintomas... "Sensação real de satisfação plena; estado de contentamento, de satisfação." Felicidade: Condição da pessoa feliz, satisfeita, alegre, contente. rosa ataíde

incontáveis tons de cinza

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foi em um sábado cinza, que senti pela última vez teu cheiro. você se vestiu de preto com uma camisa jeans por cima. foi a praia. cabreira... sem que você percebesse,  coloquei no bolso da camisa o número do telefone. ele virou cinzas, você virou cinzas! meus olhos também ficaram cobertos por uma neblina cinza... meus cabelos, eu inteira fiquei cinza. olho nos olhos das pessoas, fica fácil observá-las na página ao lado entre amigos, seguidores, pedidos de amizade e até sugestões por sermos, iguais - semelhantes, um pouco mais compatíveis. elas estão enfileiradas em perfis sorridentes e me apavoro com os que nada dizem, só replicam memes, tuítes e me pergunto... será esta uma alma cinza? que de de tão cinza, não consegue expressar qual brasa ardente a deixou cinza? embora os olhos denunciem alguma chama - os olhos sempre denunciam. será que são elas mais cinza que eu? mais que você naquela tarde de sábado? alguém disse que é impossível se por no lugar do outro... fiquei extremamente...

Faz silêncio

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Pouco antes os pássaros em revoada partiram para lugares mais quentes. As formigas desapareceram da pia, do quintal. As abelhas não vieram me acompanhar no café da manhã. Faz silêncio... Um silêncio meio oco, de estremecer o corpo inteiro, aquele de metas alcançadas, de escola vazia após as 18hrs, sono sem sonho. Faz silêncio... e o espaço se amplia. Sabe quando a água acaba e falta luz no bairro à meia noite? Quando zera suas espectativas do que virá do outro? De você? Calem-se as ofensas! Faz silêncio... Eu peço. Não há doentes aqui, ninguém respira por aparelhos. É só um favor! Faz silêncio minha mente povoada. Calem-se monstros, calem-se santos... Calem-se quereres, dissabores. Faz silêncio coração, ameniza teus batimentos. Estou ouvindo teu estrondo palpitante como caixa d'água vazia quando liga a bomba. Faz silêncio! Preciso sentir este nada que sou,  este vazio sem fim. O intervalo entre minha inspiração e o expirar. Assim como um broto traz à tona o que chamamos vida, apena...

Terra de Pindorama

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A terra do barro vermelho, dos pés descalços na lama. Vermelho do urucum na pele indígena que agradece a boa colheita, a pesca farta, a saúde do povo. Das telhas forjadas nas coxas do povo cativo, do negro drama que sangra nos bueiros, nas esquinas. Da moça de olhos pretos parecendo jabuticabas... Subindo a trilha fujindo pela mata. A terra da Pindoba e suas variadas palmeiras. A terra de bandeira verde, amarelo, azul e branco. Mas que devia ser vermelha. rosa ataíde

Maria

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me dê um pouco de tua boa fé? estou de joelhos, mãos suplicantes, silenciosa como um monge. me ocorreu que talvez você pudesse me ajudar já que para ser santa e suportar teu filho na cruz, em algum momento você precisou ter muito dessa fé que move coisas. é que sou. e ser me exige tanto que preciso crer em algo transformador que me ajude a prosseguir sendo. sinto que me falta o chão, estou em queda, como uma folha desprendida. te pouparia o peso do meu corpo clemente de fé se tivesse o mínimo dela. não quero espera/nças esperança me remete a uma espera ansiosa das coisas e ansiedade já possuo aos montes. numa primavera de 74 alguém me trouxe aqui, houve um milagre e nasci, e eu respirei, e chorei sem entender o ar nos pulmões. é que até então eu era aquática, o som que ouvia se limitava ao meu coração coração, o coração e a voz materna ao fundo. emergi por conta do milagre, da força de minha mãe, de minha necessidade de existir... rompi as paredes de seu útero, envolta em placenta. acr...

Povo em Cárcere

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  Quem mandou matar o índio?  Quem mandou matar a feminista?  Quem mandou matar o gringo? O indigente? Quem mandou matar? De fome, de sede, de doença, de assassínio? À queima roupa, bala perdida, tiro de misericórdia no meio da nuca, falta de oxigênio na viatura, calibre 40 na chacina, intramuscular de cloroquina... Quem alinhou a mira? Quem puxou o gatilho Na urna eletrônica apertou, confirma? Quem foi que mandou te matar? Quem foi que mandou matar a gente? rosa a.

espaço caiado para poetas

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espaço caiado para poetas artistas dos mais variados tipos... os ditos loucos, os de boca maldita. bêbados, marginais, excluídos? aos que dizem o que pensam quando o que se pensa é imenso, e diz-se mais que uma parede caiada comporta. e escorre, em filetes de cal, color jet, acrílicos, cartazes entre os vãos... rasuras, letras, rabiscos, lágrimas, sangue, instinto. quando o artista grita em muros, em paredes, outdoors e megafones... é que muito do que foi dito, foi negado ao ouvido. ouve só o que te digo! rasga-se o verbo nas rachaduras do tempo em via pública, na parede caiada do cabaré antigo está escrito... talvez um alerta aos prostitutos que nos negam a cultura, a arte e os livros... meus Deus!  onde estão os livros? rosa a. Foto: Moema Branquinho

entalado

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  amar é cuidar, é ter zelo. amar é se deixar afetar pelo objeto de amor, por isso, amar é ter afeto! tudo clichê, e para ficar mais clichê não podemos esquecer aquela pergunta excelente... já se amou hoje? fácil é divagar sobre amor em palavras, poetas figirão que não, mas é fácil. difícil é o olho no olho, tête-à-tête, o cheiro, o pulsar, o respirar. mas as dificuldades do amor não se dá só no campo dos amantes, se dá também na nossa própria existencia. quantas vezes respirar é difícil? quantas vezes existir é insuportável? quantas vezes nosso corpo e mente estão cansados? quantas vezes não podemos anestesiar? confesso que ando carente de amor próprio. uma vez assistindo um pastor evangélico pregando sobre depressão, ele  narrava um encontro com um médico que frequenta sua igreja e fiquei empacada nesse relato. foi mais ou menos assim a conversa: - Estou cansado, fui dormir às 4 da manhã pastor. - Mas o que aconteceu meu filho, para vc ir dormir às 4 da manhã? - Eu estava fe...

A redenção da vida é a vida

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Criamos formas contraditórias de viver, não é mesmo? Muitas vezes como uma forma de fugir daquilo que almejamos de fato ser. Como uma mea culpa para não nos responsabilizamos por nossas falhas que são tão certas quanto nossos êxitos. Como quando temos um determinado potencial, mas por algum motivo ou vários, não nos julgamos capazes de termos maestria ao realizá-lo. Nos julgamos muitas vezes medíocres (mas todos em certo grau somos). Nossa família, amigos, a sociedade, a política pode nos talhar a viver no banal, ou ao avesso dos nossos sonhos, ou pior que isso, pode acontecer de você simplesmente realizar alguns de teus sonhos, ou até o maior deles e no instinto de autossabotagem, destruir aquilo que se obteve e com isso o que há de essencial em nós. Propósitos! Então, começamos a viver no instinto de redenção, simplesmente para se perdoar pelo que não se viveu. É como buscar no externo uma tábua de salvação por não nos perdoarmos por nosso sonho abandonado, pois o vemos como um gigan...

poema

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comece o poema deixe escorrer a letra formate engome engula vomite costure, arremate mate a fome sacie a gula cada letra - dite peça um poema à lá carte um poema guardanapo no estilo Carpi trace a linha imaginária escreva algo digno ou que seja cretinice mesmo que se contradiga e ainda cause espanto fotografe o poema prato grave em xícaras e venda em algum magazine o poema livro que se chame pelo nome eu me chamo... eu em chamas eu me vendo ... o poema capital eu me mato! e o poema? vou escrever minicontos. rosa a.