a verdade não é neutra
enquanto a voz que me diz se fazia neutra
eu ardia em chamas
agora ela me queima numa pira
em que meu corpo todo carne
vira cinzas
eu mastigaria
cubos inteiros de gelo
pela revolta do mar
em insistir em romper os icebergs
mas tudo se condensou
e a verdade não pode ser neutra
nebulosa
cheia de ruídos
nenhuma das vozes que eu dizia
dizia por mim
ou me atazanava
mas todas me mastigavam por dentro
quando não as dizia
até que acordei no nada
vazia
eu já sabia do nada e nunca
pedi clemência
ou gritei:
me tira daqui!
mesmo na hora do chute
mas agora é diferente
pois a voz me reduz, me desrespeita
"vagabunda", "vadia", "insana"
em nada espero o bom
justo que o bom
nunca tive
nunca me deram
e nem sei segurar isso
também não pedi o ruim
esse lado tosco
sempre me veio como oferta
que se dá sem em nada ponderar
o amor
a vida
a morte
e a impossibilidade
de ainda dizer algo
que afete
sem atiçar brasas, me faz muda
a voz que digo agora, crepita
sem valor de testemunho próprio
e eu disse
nas entrelinhas
mas as Copas do Castelo
estão derramadas
e o pavio do candelabro em desequilíbrio
foi erguido pela espada de um Valete
açoitado pela vida

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