Olhemos o Lado Selvagem do Amor

 


eu não sabia que o amor era um animal...


eu não sabia que precisaria, com gosto rastejar por ele e que assim, ganharia os céus.


eu não sabia que amar, significava desejar e sentir a repulsa nos olhos lacrimosos


... já o senti doer, disso sabia. mas ele sabe sedar o medo da dor.


já o sacrifiquei sem saber bem o que era isso e ainda assim, fiz amor.


já o ataquei, e fui mordida por ele e foi bom, também foi ruim quando exagerei a dose e amei demais.


já quis que ele morresse, já tentei matá-lo, mas ele gritou de pavor dentro de meu peito e se acomodou quieto, obstruído e assim quase o matei, sem querer.


eu não sabia que o amor era um animal que nos amansa e que se deixa amansar nos cafés das manhãs e que se servia na janta, num cardápio de ira e conversas vencidas. mas já lhe servi meu suor, até cansar.


já senti seu afago na face e ardeu o fio da lâmina do barbear por fazer.

segurei firme sua mão, na hora do susto, e puxei pelos cabelos do amor, ficando assim com um número deles entre meus dedos como ficou a memória da primeira vez que paramos o trote e alisamos o pelo do bicho que nos conduziu a algum destino... não! nos conduziu a algum mistério, pois mesmo que se opte por seguir, para perto ou distante, não sabíamos o que faziamos ali, além de estarmos disponíveis para algo que não fosse amor e ainda assim, fazer.


eu não sabia que o amor me daria um amontoado de opções vazias e impossíveis, e que fazer o impossível eram todas as possibilidades gritando pelo amor e que assim eu o sentiria entre as unhas e que após, sua boca me negaria, me negaria, me negaria... e isso o acenderia mais e mais.


eu não sabia que o amor era um animal nos mostrando os dentes, rugindo, mordiscando meu lábio, o que me faria me morder solitária sentindo uma saudade fera. eu não sabia, nem contava com isso.


eu não sabia que o amor era a fome mais legítima e que poderia encontrá-lo numa viajem e não mais saberia disfarçá-lo. e não mais poderia acançá-lo.


eu não sabia que o amor me tomaria as lágrimas mais sinceras e os risos mais tolos.


eu não sabia que o mais primitivo em nós era a forma mais perfeita de amor, nunca imaginaria que era isso o amor. nenhum primitivo representou o amor em Lascaux para eu ter alguma noção do que era amar. há algo na Serra da Capivara - Piauí, mas nunca estive lá.


e mesmo assim não poderia ser dito - AMOR é isso ou aquilo - pois ninguém acreditaria e até o próprio amor duvidaria e ainda assim eu não o reconheceria e me perguntaria...


- o que é o amor? -


eu não sabia que o amor, sempre fora um bicho e que sendo um bicho, algumas vezes ele vai embora e que entender isso, seria demasiado humano de minha parte, o que me deixa em conflito, pois sou em essência tão bicho quanto o amor que digo real.


eu não sabia que o amor me comeria por dentro enquanto o exponho sussurrando com essa saliva no canto da boca, e que a cama mesmo sem sexo, mesmo dividida ficaria marcada por ele, como nódoa, como uma tatuagem impregnada de memória, de tédio e nostalgia e ternura. eu nunca poderia saber disso antes de sentí-lo. e vê-lo ir e baixar as rédeas do que entendia e apenas sentir seu atravessamento me deixaria abastada dele.


amar, nos parece impossível, mas não é de fato. apenas o olhamos como crianças e amor é para quem aceita suas impossibilidades e seu tanto de desmedida e por isso, o amor é livre flecha disparada em mata qualquer.


que inocente pareço uma Paloma blanca herida, embora ultimamente tenha latido e usado coleira, e mesmo em minhas descobertas, descubro cada vez mais que tenho tanto a descobrir.


o amor me atravessou os ossos e o coração bombeia amor por todo meu corpo para manter meus órgãos ativos e eu sobreviva, distante daquele amor. 

-vê¡¿ - 

ainda que a desbravar só, trilhas, trilhos, vendavais, em busca do meu amor.


- olhe só! -


um cão perdido, esse amor.


Rosa


Trecho de algo que pretendo livro, pois ainda está em estudo, um ano estudando e pincelando, talvez eu chegue lá em mais um, dois? Quem sabe? Era para ser uma peça em monólogo. Mas ganhou outra forma, ou ganha...🤷🏼‍♀️


Dançarina: Olga Sokolova

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