sobras de meus fios
confecciono
com sobras de fios
por sobre a pele
um poema imaginário
para não esquecer
suas notas de rascunhos
suas notícias vazias
salvo o poema
no meu fiar
tatuo
para recompô-lo
ao dar-lhe voz e raramente dou
-
no desfiar do tempo
em que o poema
o poema era apenas
uns versos
de pipas coloridas
antes de eu aprisioná-lo
na imagem que compus
nessa dança de céu
quase um manto ao tapar o Sol
quase um canto entre a brisa
e os gritos de menina
quando as árvores
eram altas para savá-las
um poema quase corpo
e o que é o corpo
além de um vulto?
hábitat da alma
que o conduz?
e depois parte e voa
... e a gente não alcança mais
fiamos isso de vida
em meio a partitura
de um desfilar do corpo
este que nos cabe
ser e estar
e esquecemos
a vergadura de uma haste de bambu
por isso fio
em linhas de desfio
poesia como corte
como feridas cerzidas
anestesiada cicatriz
para que na arqueologia
seja algo tecido
junto aos meus ossos vazios
vazios
daquela que um dia fui
mas que nunca, nunca
esqueceu de ser
mesmo quando me ser
era improvável
e queria desistir desse tear
e segurar o desejo
como fio de rabiola
e tecer meu manto
para insistir no inverno sem vento
que não sei se suporto
se resisto
ao corte do cerol
à degola
a queda em pleno vôo
rosa a.

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